O que me fez parar de esquecer tudo que eu lia
Pensei muito antes de escrever isto, com medo de soar como história barata de internet.
No auge dos meus 36 anos, eu ainda me sentia bastante perdido fazendo meu trabalho simples do dia a dia. Não estou falando de IA: esse problema já existia havia anos, e vinha piorando na última década. Quanto mais eu avançava em conhecimento, mais eu me sentia para trás. Achava impossível ter que saber de tudo só para acompanhar, ou para continuar empregado. Meu contexto é desenvolvimento de software, mas isso vale para qualquer área.
Meu maior inimigo era aprender coisas novas que eu não tinha como aplicar no dia a dia. Estudar, dar um tapinha nas próprias costas e passar para a próxima. Como eu nunca retia nada do que aprendia, ficava preso num laço: travado num assunto que eu lia, esquecia, voltava a ler, e nunca tinha a confiança de que tinha aprendido de verdade.
Eu rabiscava em papel. O assunto em que mais tentei me aprofundar foi justamente aprender a aprender, e nem nesse eu progredia.
A primeira vez que aquilo fez sentido
Até que vi um vídeo que me mostrou, pela primeira vez, a ideia de estudar e anotar de um jeito que, dez anos depois, você ainda saberia onde encontrar aquilo se precisasse. Isso me libertou de um jeito difícil de explicar.
Existe uma calma que vem de saber onde encontrar o que você viu meses, anos atrás.
Parece fácil demais. Eu poderia salvar uma nota numa pasta, num drive, num papel qualquer, e saberia encontrar depois, certo? Não é fácil. Quando você guarda informação numa pasta, uma hora esquece qual pasta era, qual drive, qual HD. Isso nunca me deu confiança nenhuma.
Quando conheci o Obsidian e vi como as pessoas organizavam informação não exatamente em pastas, mas por proximidade de links, foi a primeira vez que senti que aquilo poderia realmente funcionar. Se eu escrevesse algo e tivesse até uma lembrança vaga do que era, saberia onde ficam os assuntos parecidos. Estreitando o suficiente, eu chegaria perto do que estava procurando.
O argumento que me convenceu de vez
Mesmo que daqui a dez anos eu não tenha mais o Obsidian, minhas notas ainda vão estar lá, em algum lugar, com as conexões intactas. Qualquer que seja o software, a pasta ou o drive, eu ainda vou conseguir achar o que quero.
Depois que me convenci de que finalmente tinha algo bom nas mãos, comecei a perceber que não era sobre Obsidian ou Notion. É o processo mental, o arcabouço, a forma de armazenar. Isso funcionaria independentemente do software, ou até no papel.
Quando fui me aprofundar e alguém me falou de Zettelkasten, aquilo virou meu hiperfoco. Segui em mais leituras e, conforme eu melhorava como usuário do sistema, melhorava também em várias outras áreas. Fiquei melhor como pesquisador, depois como escritor, aprendi a editar vídeo, melhorei muito meu inglês e evoluí como desenvolvedor.
E aí a IA explodiu
Na época em que achei que finalmente ia melhorar de vida, o hype de IA estourou. A ideia de segundo cérebro e de conexões parecia de repente analógica perto do que o ChatGPT fazia. Isso me derrubou de início.
Mas, quando comecei a entender que o chat, por mais incrível que seja, ainda exige que você queime neurônios e processe o que recebe, vi que continuava havendo valor no que eu estava construindo. Na verdade, mais valor: com a informação agora mais fácil de encontrar e processar, mais do que nunca eu precisava de algo que me desse sustentação.
O que eu não vou prometer
Não é um sistema perfeito. Usado sem critério, ele pode dar errado e causar mais cansaço do que ajuda. Para mim, quanto mais enxuto e simples, mais ele ajuda.
Se você está se perguntando se é fácil, não é. Mas para mim valeu a pena tentar. Tem sido uma ferramenta real para encarar o quanto o mundo ficou selvagem: a competição e a quantidade absurda de informação que a gente consome todo dia.
Tenho curiosidade de saber como tem sido para os outros. Foi melhor, foi pior? Você parou de usar em algum momento, ou tem um período longo de uso com resultados que deixam você orgulhoso?